Pais atípicos: situações do dia a dia que muitas famílias vão reconhecer

A expressão pais atípicos é popularmente utilizada para se referir a pais e responsáveis por crianças com deficiência, transtornos ou condições do neurodesenvolvimento, como o Transtorno do Espectro Autista (TEA). Não existe, porém, uma única experiência de parentalidade atípica. Cada criança apresenta características, necessidades e potencialidades próprias.

Existem adaptações que ninguém ensina. Elas surgem no dia a dia, quando pais e responsáveis começam a perceber que determinadas situações exigem um cuidado diferente com seus filhos.

Cortar as unhas enquanto a criança dorme, comprar a mesma roupa em vários tamanhos, planejar o caminho antes de sair ou chegar mais cedo para apresentar um ambiente ainda vazio.

Para muitas famílias atípicas, estratégias como essas deixam de parecer adaptações e simplesmente passam a fazer parte da vida.

Mas por que isso acontece? E quando essas situações podem indicar que vale olhar com mais atenção para o desenvolvimento infantil?

O que significa ser pai ou mãe atípico?

A expressão pais atípicos é popularmente utilizada para se referir a pais e responsáveis por crianças com deficiência, transtornos ou condições do neurodesenvolvimento, como o Transtorno do Espectro Autista (TEA).

Não existe, porém, uma única experiência de parentalidade atípica. Cada criança apresenta características, necessidades e potencialidades próprias.

Da mesma forma, nenhuma das situações deste artigo, isoladamente, significa que uma criança seja autista.

O que pode chamar a atenção é a frequência, a intensidade e, principalmente, a presença de um conjunto de características relacionadas ao desenvolvimento, à comunicação, à interação social, ao comportamento e às questões sensoriais.

1. Cortar as unhas somente quando a criança está dormindo

Para algumas famílias, cortar as unhas pode se transformar em uma verdadeira missão.

A criança pode se incomodar com o toque nas mãos, com a sensação do cortador, com o som ou até com a imprevisibilidade do momento. Por isso, alguns pais descobrem que realizar essa tarefa durante o sono é muito mais fácil.

Em crianças autistas, diferenças na resposta a estímulos sensoriais podem fazer com que experiências aparentemente simples sejam percebidas de maneira muito mais intensa.

Isso não significa que toda criança que não gosta de cortar as unhas seja autista. O contexto é fundamental.

2. Comprar a mesma roupa em vários tamanhos

Encontrou uma camiseta que a criança aceita? Alguns pais já pensam: “Vou comprar a próxima numeração também.”

Isso pode acontecer porque determinadas crianças possuem preferências muito específicas relacionadas a tecidos, costuras, modelagens, pressão da roupa sobre o corpo ou outras sensações.

Quando finalmente encontram uma peça confortável, os responsáveis podem preferir garantir versões maiores em vez de enfrentar novamente todo o processo de adaptação a uma roupa diferente.

3. Saber exatamente qual caminho fazer

Para algumas crianças, não importa apenas onde a família está indo, mas também como chegará até lá.

Uma mudança de rua, uma parada inesperada ou uma sequência diferente daquela que a criança esperava pode gerar desconforto.

No autismo, podem existir características relacionadas à necessidade de previsibilidade, preferência por rotinas e dificuldade diante de determinadas mudanças.

Por isso, alguns pais aprendem quais trajetos funcionam melhor e passam a planejá-los cuidadosamente.

4. Cortar as etiquetas antes mesmo de a criança pedir

Existem pais que compram uma roupa nova e, antes de colocá-la no armário, já pegam a tesoura.

A etiqueta pode parecer um detalhe quase imperceptível para algumas pessoas, mas, para outras, o contato constante com a pele pode provocar bastante incômodo.

Essa é uma das formas pelas quais particularidades sensoriais podem aparecer no cotidiano.

E, depois de algumas experiências, os pais já sabem: aquela etiqueta provavelmente precisará sair.

5. Ter sempre um “plano de saída”

Antes mesmo de chegar a uma festa, restaurante, evento ou outro ambiente, alguns responsáveis já estão pensando:

Onde é mais tranquilo?
Existe algum espaço para esperar?
Se meu filho precisar sair, como faremos?

Esse planejamento pode surgir quando os pais já conhecem os sinais de que determinado ambiente está se tornando difícil para a criança.

Ter uma alternativa não significa necessariamente evitar experiências. Muitas vezes, significa respeitar limites e criar condições para que a participação seja possível.

6. Perceber sinais que quase ninguém nota

Com o tempo, muitos pais desenvolvem uma capacidade impressionante de perceber pequenas mudanças.

Pode ser um olhar diferente, uma frase que começa a ser repetida, uma alteração no movimento do corpo ou uma mudança sutil no comportamento.

Para outras pessoas, aparentemente não aconteceu nada.

Para os pais, aquele pequeno sinal já pode significar: “está ficando demais.”

Conhecer esses padrões ajuda a família a antecipar necessidades e oferecer suporte antes que o desconforto aumente.

7. Ter uma versão reserva do objeto favorito

Algumas famílias chegam a comprar duas unidades do mesmo brinquedo, objeto ou item querido.

Uma fica em uso. A outra, estrategicamente guardada.

Isso acontece porque determinados objetos podem ter um papel importante na rotina e no conforto da criança. Perder ou danificar aquele item pode ser muito difícil para ela.

Mais uma vez, ter um objeto favorito é absolutamente comum na infância. O que merece ser observado é como a criança se relaciona com ele, a intensidade dessa necessidade e como reage à sua ausência ou a mudanças.

8. Chegar mais cedo para a criança conhecer o lugar vazio

Há famílias que chegam a uma festa, escola, consulta ou atividade antes de todo mundo.

Não é apenas questão de pontualidade.

Conhecer primeiro um ambiente mais tranquilo pode permitir que a criança explore o espaço antes que pessoas, conversas, música, movimentos e outros estímulos cheguem juntos.

Para algumas crianças, essa transição gradual torna a experiência mais previsível e confortável.

Por que essas pequenas “missões” podem acontecer?

Muitas dessas estratégias têm algo em comum: os pais estão tentando compreender e acomodar as necessidades da criança.

No autismo, podem existir diferenças relacionadas à comunicação e interação social, comportamentos e interesses restritos ou repetitivos, necessidade de previsibilidade e respostas sensoriais diferentes.

Por isso, algumas famílias começam a fazer adaptações muito antes de existir uma investigação ou diagnóstico.

Elas não necessariamente pensam: “estou fazendo uma adaptação”.

Pensam apenas:

“Assim funciona melhor para o meu filho.”

E seguem fazendo.

Essas situações significam que meu filho é autista?

Não.

Cortar etiquetas, preferir determinados caminhos, não gostar de cortar as unhas ou ter um objeto favorito não são testes para autismo.

Muitas crianças sem TEA também podem apresentar alguns desses comportamentos.

Na investigação do autismo, os profissionais observam um conjunto de características, sua intensidade, frequência, contexto e impacto no desenvolvimento e na vida da criança.

Por isso, é importante evitar tanto o autodiagnóstico baseado em conteúdos das redes sociais quanto a ideia de que determinados comportamentos devem ser ignorados.

Quais outros sinais podem merecer atenção?

Além dessas situações cotidianas, pais e responsáveis podem perceber diferenças persistentes relacionadas à:

  • comunicação verbal e não verbal;
  • interação e reciprocidade social;
  • brincadeira e compartilhamento de interesses;
  • resposta a mudanças e transições;
  • presença de movimentos ou comportamentos repetitivos;
  • interesses muito intensos ou específicos;
  • respostas incomuns a sons, texturas, luzes, cheiros ou outras sensações.

A presença de uma característica isolada não determina um diagnóstico. É o conjunto e a trajetória do desenvolvimento que precisam ser considerados.

Quando buscar uma avaliação?

Uma pergunta útil não é apenas “meu filho faz isso?”, mas também:

“Quanto essas características interferem no cotidiano dele e da nossa família?”

Se vocês perceberam várias dessas situações, realizam adaptações frequentes ou têm dúvidas sobre a comunicação, interação, comportamento ou desenvolvimento da criança, pode ser importante procurar uma avaliação especializada do desenvolvimento infantil.

A avaliação não serve apenas para chegar ou não a um diagnóstico de autismo. Ela ajuda a compreender o perfil e as necessidades da criança e orientar os próximos passos.

No Instituto Singular, nossa equipe pode ajudar sua família nesse processo.

Identificou essas situações ou tem dúvidas sobre o desenvolvimento do seu filho? Entre em contato com o Instituto Singular e converse com nossa equipe: https://bit.ly/WhatsappClinicas

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