Quando pensamos no 7 de Setembro, é comum lembrarmos das atividades escolares, das bandeiras, do Hino Nacional e das explicações sobre a Independência do Brasil. Mas, para quem trabalha com desenvolvimento infantil, datas como essa também podem ser uma oportunidade interessante para observar uma coisa que sempre gosto de reforçar: a criança aprende o tempo inteiro, e muitas das melhores oportunidades de aprendizagem estão justamente na vida acontecendo.
Essa é uma das ideias que fazem parte da ABA Naturalista.
Em vez de concentrarmos o ensino apenas em situações estruturadas, aproveitamos interesses, brincadeiras, escolhas, passeios e acontecimentos do cotidiano para desenvolver habilidades importantes de maneira funcional e significativa.
E o 7 de Setembro pode nos oferecer várias dessas oportunidades.
Não precisamos transformar o feriado em uma aula
Imagine que vocês saíram para passear e a criança começou a reparar nas bandeiras espalhadas pela cidade.
Em vez de tentar explicar toda a história da Independência do Brasil, podemos começar pelo que chamou a atenção dela.
“Você viu a bandeira?”
“Quais cores você encontrou?”
“Olha, tem outra ali!”
Dependendo da idade e do desenvolvimento da criança, uma situação tão simples pode ser usada para trabalhar nomeação, cores, atenção compartilhada, perguntas, ampliação de vocabulário e construção de frases.
Se ela aponta e diz “bandeira”, por exemplo, o adulto pode ampliar naturalmente: “Isso, uma bandeira do Brasil!” Se ela pergunta por que existem tantas bandeiras na rua, temos a oportunidade de conversar sobre a data a partir de uma curiosidade que surgiu dela.
Percebam que não estamos criando uma sessão de terapia no meio do passeio. Estamos aproveitando uma situação real para favorecer comunicação e aprendizagem.
O feriado também pode ensinar autonomia
Existe outra possibilidade que eu acho especialmente interessante no 7 de Setembro: conversar sobre independência a partir de algo muito mais próximo da realidade da criança.
O Brasil comemora sua independência.
Mas o que significa conquistar independência na infância?
Dependendo da idade, pode ser escolher entre duas roupas, guardar os próprios objetos, ajudar a preparar um lanche, organizar a mochila para um passeio, colocar água na garrafinha, escovar os dentes com menos ajuda ou conseguir comunicar quando precisa de alguma coisa.
Para uma criança, inclusive uma criança autista, ser mais independente não significa necessariamente fazer tudo sozinha.
Autonomia também é conseguir fazer escolhas, comunicar preferências, dizer “não”, pedir uma pausa e saber pedir ajuda quando precisa.
Por isso, uma família que vai passear no feriado pode envolver a criança na preparação. Em vez de fazer tudo por ela, podemos perguntar: “Você quer levar água ou suco?”, deixar que coloque alguns objetos na mochila ou que escolha entre duas opções de lanche.
São pequenas decisões, mas autonomia começa justamente aí.
Ela não aparece de repente aos 18 anos. É construída nas pequenas oportunidades que oferecemos desde a infância.
Na ABA Naturalista, a vida também é lugar de aprendizagem
Quando ensinamos uma habilidade apenas em uma situação muito específica, existe o risco de a criança aprender a responder naquele contexto, com aquela pessoa ou diante daquele estímulo, mas ter dificuldade de usar o que aprendeu em outras situações.
É por isso que falamos tanto sobre generalização.
Queremos que a comunicação, a autonomia e as habilidades adquiridas façam sentido fora da terapia, em casa, na escola, no supermercado, na casa dos avós e durante um passeio.
Na ABA Naturalista, procuramos justamente aproveitar situações que já fazem parte da vida da criança e aquilo que naquele momento tem significado para ela.
Se a criança quer abrir uma embalagem, temos uma oportunidade para trabalhar o pedido de ajuda. Se quer determinado brinquedo, podemos favorecer a comunicação. Se vai sair de casa, podemos trabalhar com escolhas e organização. Se precisa esperar alguns minutos, existe uma situação real para desenvolver gradualmente essa habilidade.
O objetivo não é transformar os pais em terapeutas nem fazer de cada minuto da infância uma intervenção.
Muito pelo contrário.
É permitir que aquilo que está sendo aprendido faça cada vez mais parte da vida.
E se a criança autista não quiser participar das comemorações?
Também precisamos falar sobre isso.
Dependendo de onde a família mora e do tipo de comemoração, o 7 de Setembro pode envolver desfiles, música, muitas pessoas, alterações no trânsito, ambientes movimentados e mudanças na rotina.
Para algumas crianças autistas, isso pode significar uma carga sensorial importante.
Não precisamos colocar uma criança em uma situação de sofrimento apenas porque acreditamos que ela “precisa participar”.
Se a família pretende ir a algum evento, podemos antecipar o que vai acontecer, mostrar fotos ou vídeos do local, explicar quanto tempo aproximadamente ficarão ali e combinar uma forma de a criança comunicar que precisa sair ou fazer uma pausa.
Quando necessário, recursos que a criança já utiliza para lidar com estímulos sensoriais também devem ser considerados. E, principalmente, precisamos observar seus sinais.
Transformar uma experiência em aprendizagem não significa obrigar a criança a vivê-la do nosso jeito. Primeiro precisamos entender como ela consegue participar.
Às vezes, a melhor experiência daquele feriado não será assistir a um desfile. Pode ser fazer um passeio tranquilo, desenhar uma bandeira em casa, preparar alguma coisa juntos ou simplesmente aproveitar um dia diferente em família.
Aprender também é participar da própria vida
Talvez essa seja a reflexão mais interessante que o 7 de Setembro pode trazer para quem convive com crianças.
Quando pensamos em desenvolvimento, podemos ficar tão preocupados com aquilo que ainda precisa ser ensinado que deixamos de perceber quantas oportunidades existem nas situações mais simples.
Escolher. Pedir. Esperar. Participar. Comunicar uma preferência. Tentar fazer algo sozinho. Perceber que não consegue e pedir ajuda.
Tudo isso é aprendizagem.
E, quando falamos em independência na infância, não estamos falando em criar crianças que não precisem de ninguém. Estamos falando em ajudá-las, respeitando suas possibilidades e necessidades de suporte, a participar cada vez mais da própria vida.
Talvez esse seja um bom significado para levarmos deste 7 de Setembro para dentro de casa: autonomia não é fazer tudo sozinho. É ter cada vez mais recursos para escolher, comunicar, participar e construir o próprio caminho.
Com carinho,
Mayra Gaiato- Psicóloga e neurocientista