Seu filho anda triste? Nem toda tristeza é depressão, mas alguns sinais não devem ser ignorados

No Setembro Amarelo, dados recentes sobre a saúde mental dos adolescentes brasileiros reforçam uma pergunta importante para as famílias: quando uma mudança de comportamento faz parte do desenvolvimento e quando é hora de procurar ajuda?

Começamos o Setembro Amarelo com números que merecem a atenção de todos nós que convivemos com crianças e adolescentes. Dados da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE) 2024 mostram que 28,9% dos estudantes brasileiros de 13 a 17 anos relatam sentir tristeza na maior parte do tempo. 

Outros 32% disseram ter sentido vontade de se machucar de propósito nos 30 dias anteriores à pesquisa e 18,5% afirmaram sentir que a vida não valia a pena ser vivida. Entre as meninas, esse último percentual chegou a 25%.

São números difíceis de ler, eu sei. Mas acredito que falar sobre eles é também uma forma de prevenção.

No consultório e nas conversas com famílias, uma dúvida aparece com frequência: como saber se meu filho está vivendo uma fase difícil ou se existe um sofrimento emocional que precisa de ajuda profissional?

Não existe uma resposta baseada em um único comportamento. Uma criança pode ficar triste porque brigou com um amigo, um adolescente pode se fechar depois de uma frustração, ter dias de irritação, querer passar algum tempo sozinho ou sofrer muito com algo que, aos olhos de um adulto, parece pequeno. Sentir tristeza faz parte da vida e nosso objetivo não deve ser criar filhos que nunca sofram.

O que precisamos observar é quando alguma coisa começa a mudar de forma persistente.

Mais importante do que um sinal isolado é perceber mudanças

Quando conhecemos nossos filhos, geralmente sabemos como eles costumam funcionar. Por isso, vale prestar atenção quando aquele adolescente que gostava de encontrar os amigos passa a evitar todos, quando perde o interesse por atividades que antes davam prazer, começa a dormir muito mais ou muito menos, apresenta mudanças importantes no apetite, tem uma queda significativa no funcionamento escolar ou demonstra irritabilidade e desesperança de maneira persistente.

Algumas crianças e adolescentes conseguem dizer claramente: “Eu não estou bem”. Outros mostram pelo comportamento aquilo que ainda não conseguem colocar em palavras.

Por isso, não gosto da ideia de transformar saúde mental em uma lista de sintomas que os pais precisam conferir. O mais importante é observar a criança inteira e perceber mudanças em relação a quem ela costumava ser.

E existem sinais que exigem atenção imediata. Falas sobre não querer mais viver, desejar desaparecer, acreditar que a família estaria melhor sem ela, automutilação ou qualquer comportamento que coloque a própria vida em risco nunca devem ser tratados como drama, manipulação ou tentativa de chamar atenção. Precisam ser acolhidos e avaliados por profissionais.

O cérebro adolescente ainda está amadurecendo

A adolescência é um período fascinante do desenvolvimento cerebral, mas também bastante complexo. O cérebro ainda está passando por importantes transformações, inclusive nas redes relacionadas ao planejamento, à tomada de decisões, ao controle de impulsos e à regulação emocional.

Ao mesmo tempo, pertencimento, aceitação social e recompensas ganham enorme importância nessa fase. Uma amizade que termina, uma exclusão de um grupo, uma exposição nas redes sociais ou a sensação de não pertencer podem ter um peso emocional muito maior do que imaginamos olhando com a experiência de um cérebro adulto.

Isso não significa que todo adolescente seja emocionalmente desregulado ou que qualquer sofrimento seja consequência dos hormônios. Muito pelo contrário.

Uma das frases que mais podem afastar um adolescente de nós é: “Isso é coisa da sua idade.”

Pode até ser uma experiência comum daquela idade, mas o sofrimento que ele está sentindo é real.

Antes de tentar resolver, escute

Quando um filho finalmente conta que não está bem, nossa tendência como pais e adultos é tentar resolver. Queremos dar conselho, explicar que aquilo vai passar, mostrar que existem problemas maiores ou encontrar imediatamente uma solução.

Mas, muitas vezes, o primeiro cuidado é simplesmente escutar.

Em vez de “você não tem motivo para estar assim”, podemos perguntar: “Quer me contar o que está acontecendo?”. Em vez de “isso vai passar”, podemos dizer: “Eu percebi que você não está bem e estou aqui”.

Escutar não significa concordar com tudo, nem deixar de estabelecer limites. Significa criar dentro de casa um ambiente no qual aquela criança ou adolescente saiba que pode falar sobre sentimentos difíceis sem medo de ser ridicularizado, punido ou julgado.

Essa confiança não começa quando aparece uma crise. Ela é construída nas pequenas conversas de todos os dias.

Procurar ajuda não significa que os pais falharam

Quero reforçar isso especialmente neste Setembro Amarelo.

Há situações em que amor, diálogo e presença familiar não são suficientes, e procurar um psicólogo, psiquiatra ou outro profissional capacitado não significa que os pais fizeram alguma coisa errada.

Significa reconhecer que aquele filho precisa de um cuidado que vai além do que a família consegue oferecer sozinha.

Também tivemos recentemente um avanço importante no acesso a essa escuta. O Ministério da Saúde e o UNICEF ampliaram o Pode Falar, canal gratuito e anônimo de apoio à saúde mental para adolescentes e jovens de 13 a 24 anos. A capacidade mensal do serviço passou de cerca de mil para 11 mil atendimentos, e os jovens podem buscar acolhimento virtual e orientação para acessar outros serviços quando necessário.

Talvez uma das mensagens mais importantes deste Setembro Amarelo seja justamente esta: não precisamos esperar que o sofrimento se torne insuportável para começar a conversar sobre ele.

Observe seu filho. Pergunte como ele está — e esteja realmente disponível para ouvir a resposta.

Nem toda tristeza é depressão. Nem todo isolamento significa que existe um transtorno. Mas toda mudança importante e persistente merece nosso olhar, e todo pedido de ajuda merece ser levado a sério.

Às vezes, antes de uma criança ou adolescente conseguir dizer “eu preciso de ajuda”, ela precisa ter certeza de que existe alguém disposto a escutar.

Com carinho,
Mayra Gaiato
Psicóloga e neurocientista

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