Setembro Amarelo é um convite para ampliar as conversas sobre proteção, cuidado e prevenção. E, quando falamos sobre autismo, existem situações de risco que também precisam ser conhecidas.
Uma delas é o eloping, comportamento que pode acontecer de forma muito rápida e trazer consequências graves.
Mas é importante começar por um esclarecimento: eloping não significa que exista intenção de se machucar.
Entender essa diferença é fundamental para acolher as famílias, evitar interpretações equivocadas e, principalmente, pensar em estratégias de prevenção.
O que é eloping no autismo?
Eloping, também chamado de wandering ou comportamento de fuga, acontece quando uma pessoa se afasta de um ambiente seguro ou de quem está responsável por sua supervisão, podendo se expor a situações perigosas.
Pode acontecer em casa, na escola, em espaços públicos ou durante atividades da rotina.
E não é algo raro.
Um estudo publicado na revista científica Pediatrics identificou que 49% das crianças autistas participantes haviam tentado eloping pelo menos uma vez após os 4 anos de idade.
Fonte: Anderson et al., Pediatrics.
Por que o eloping acontece?
Nem todo episódio acontece pelo mesmo motivo.
A pessoa pode tentar se afastar para escapar de uma demanda ou situação desconfortável, evitar determinados estímulos, buscar algo de grande interesse ou atender a alguma necessidade.
Por isso, olhar apenas para a “fuga” pode não ser suficiente.
Observar o que acontece antes, durante e depois do comportamento pode ajudar a identificar padrões e compreender melhor sua função.
Existem sinais antes do eloping?
Nem sempre haverá um aviso claro, e os sinais podem variar de pessoa para pessoa.
Alguns comportamentos, porém, merecem atenção:
- olhar repetidamente para portas, portões ou saídas;
- aproximar-se das saídas em determinadas situações;
- tentar se afastar diante de demandas ou estímulos específicos;
- demonstrar interesse intenso por determinado lugar, objeto ou atividade;
- apresentar mudanças de comportamento em contextos que já estiveram associados ao eloping.
Mais importante do que procurar uma lista universal de sinais é conhecer os padrões daquela pessoa.
Fonte: CDC — Wandering (Elopement).
Eloping não é “desobediência”
Quando uma pessoa autista tenta deixar determinado ambiente, interpretar imediatamente esse comportamento como “desobediência” pode esconder informações importantes.
Apenas repreender ou impedir o comportamento não necessariamente ensina uma alternativa mais segura.
Além das medidas de proteção, pode ser necessário ensinar formas de comunicar necessidades, pedir uma pausa, acessar algo de interesse ou lidar com situações desconfortáveis com mais segurança.
Compreender o comportamento não significa minimizar o risco. Significa ter mais informações para preveni-lo.
Eloping não significa intenção de se machucar
Essa distinção é especialmente importante quando trazemos o assunto durante o Setembro Amarelo.
Eloping e comportamentos relacionados à intenção de provocar dano a si são situações diferentes.
Uma pessoa pode se afastar para buscar algo de interesse, escapar de uma situação ou por outras razões, sem ter intenção de se ferir — e até mesmo sem compreender completamente os perigos envolvidos.
Ainda assim, o risco pode ser grave.
Entre as crianças que ficaram desaparecidas tempo suficiente para gerar preocupação em um estudo:
65% estiveram em risco de acidente de trânsito e 24% em risco de afogamento.
Fonte: Anderson et al., Pediatrics.
Não é sobre culpar a família
Um episódio de eloping pode acontecer muito rapidamente, inclusive quando existe supervisão.
Por isso, culpabilizar pais ou responsáveis não contribui para a prevenção.
Em vez de perguntar “quem deixou isso acontecer?”, é mais importante pensar:
“O que podemos fazer para reduzir o risco de acontecer novamente?”
Família, escola e profissionais podem trabalhar juntos para identificar situações de maior risco e construir estratégias adequadas à realidade daquela pessoa.
Prevenção precisa de parceria, não de culpa.
Segurança começa antes
Não existe uma estratégia única para prevenir o eloping.
Dependendo das necessidades de cada pessoa, o cuidado pode envolver adaptações no ambiente, identificação de situações de maior risco, ensino de habilidades de comunicação e segurança e um plano claro de resposta caso um episódio aconteça.
As estratégias precisam ser individualizadas porque as razões por trás do comportamento também podem ser diferentes.
Prevenir é conhecer padrões, reconhecer riscos e agir antes.
Neste Setembro Amarelo, ampliar a conversa sobre proteção à vida também significa dar visibilidade a situações que nem sempre são conhecidas.
No autismo, compreender comportamentos, acolher famílias e construir estratégias de prevenção também são formas de cuidado.
Se o eloping faz parte da rotina da sua família ou existe preocupação com comportamentos que podem colocar sua criança em risco, uma avaliação profissional pode ajudar a compreender o contexto e orientar estratégias individualizadas.
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Referências
ANDERSON, C. et al. Occurrence and Family Impact of Elopement in Children With Autism Spectrum Disorders. Pediatrics.
CENTERS FOR DISEASE CONTROL AND PREVENTION (CDC). Wandering (Elopement). Child Development: Disability Safety.