“Mayra, ele sabe fazer. Na terapia faz direitinho. Por que comigo ele não faz?”
Essa é uma pergunta que escuto muito das famílias. Às vezes, vem acompanhada de preocupação; outras, de frustração. Os pais assistem ao filho realizar determinada tarefa com o terapeuta e, quando tentam a mesma coisa em casa, parece que aquela habilidade simplesmente desapareceu.
Mas existe algo muito importante que precisamos compreender sobre aprendizagem: conseguir fazer alguma coisa em uma situação específica não significa, necessariamente, saber usar aquela habilidade em outros contextos.
Na Análise do Comportamento Aplicada (ABA), chamamos de generalização a capacidade de utilizar aquilo que foi aprendido diante de pessoas, ambientes e situações diferentes daquelas em que o ensino aconteceu.
E isso faz toda a diferença.
A criança pode ter aprendido mais pistas do que imaginamos
Vamos pensar em uma criança que está aprendendo a pedir água. Durante a terapia, o profissional coloca o copo diante dela, faz uma determinada pergunta e espera a resposta. Depois de algum tempo, ela aprende a pedir.
Ótimo. Houve aprendizagem.
Mas será que ela consegue fazer o mesmo quando está com sede na casa da avó? Na escola? Durante um passeio? Consegue pedir para o pai, para a professora ou para outra pessoa? E, principalmente, consegue comunicar essa necessidade sem que alguém precise primeiro perguntar “o que você quer?”.
Se isso ainda não acontece, não significa que ela tenha esquecido tudo.
Talvez a resposta ainda esteja muito ligada às condições em que foi ensinada: à presença do terapeuta, à pergunta, ao ambiente, à posição do copo ou a outras pistas que nós, adultos, muitas vezes nem percebemos.
Por isso, generalizar também precisa fazer parte do ensino.
É aqui que a ABA Naturalista faz tanto sentido
Eu gosto muito de pensar que as melhores oportunidades de aprendizagem estão acontecendo o tempo inteiro, no meio da vida.
Se queremos ensinar uma criança a se vestir, podemos trabalhar essa habilidade no momento em que ela realmente vai colocar a roupa. Se queremos ensinar a pedir ajuda, podemos aproveitar situações em que ela verdadeiramente precisa de ajuda. Se estamos trabalhando espera, existem pequenas oportunidades no cotidiano: esperar alguns segundos pelo elevador, pela comida ficar pronta ou pela vez em uma brincadeira.
A comunicação também ganha muito mais sentido quando nasce de uma necessidade real. Pedir para abrir um pote quando quer comer algo que está dentro dele, chamar alguém para continuar uma brincadeira, dizer “não” quando não quer alguma coisa ou pedir uma pausa quando um ambiente está desconfortável.
Isso é muito diferente de apenas repetir uma resposta porque um adulto fez uma pergunta.
Na ABA Naturalista, usamos interesses, motivações, brincadeiras, relações e acontecimentos cotidianos como oportunidades de aprendizagem. O objetivo não é transformar a casa em uma sala de terapia. Pelo contrário: é fazer com que aquilo que foi aprendido consiga existir fora da terapia.
“Mas com a terapeuta ele faz…”
Essa comparação pode gerar uma angústia desnecessária nos pais.
Às vezes, a família conclui que está fazendo algo errado. Em outras situações, alguém interpreta o comportamento da criança como preguiça, manipulação ou falta de limites: “Ela sabe fazer, só não quer fazer comigo”.
Nem sempre é assim.
Uma habilidade pode estar presente, mas ainda depender de ajuda, de uma instrução específica ou de determinadas condições para aparecer. Também precisamos considerar que os ambientes têm exigências diferentes. Uma criança pode conseguir realizar uma tarefa em um espaço tranquilo e organizado e encontrar muito mais dificuldade em um ambiente cheio de estímulos, por exemplo.
Antes de perguntar “por que ele não faz?”, muitas vezes vale perguntar: “o que existe naquela situação em que ele consegue fazer que ainda está faltando aqui?”
Essa mudança de pergunta nos ajuda muito mais.
A família não precisa virar terapeuta
Esse ponto é especialmente importante para mim.
Quando falamos em levar as habilidades para o cotidiano, não estamos dizendo que os pais precisam passar o dia aplicando atividades, registrando comportamentos ou transformando cada momento em uma intervenção.
Pais precisam continuar sendo pais.
O papel dos profissionais também é ajudá-los a identificar pequenas oportunidades que já existem na rotina. Uma refeição, o banho, uma ida ao supermercado, uma brincadeira no chão ou o momento de guardar os brinquedos podem oferecer experiências muito mais significativas do que criar situações artificiais apenas para “treinar” uma resposta.
E, conforme a criança ganha autonomia, nós também precisamos saber retirar gradualmente as ajudas. Afinal, não queremos que ela aprenda a realizar uma tarefa somente quando existe um adulto ao lado dizendo cada passo.
Queremos que consiga usar aquela habilidade quando realmente precisar dela.
O aprendizado precisa acompanhar a criança para fora da sala
A terapia tem um papel muito importante no desenvolvimento, mas ela não pode ser o único lugar onde as habilidades existem.
Quando ensinamos comunicação, queremos que a criança consiga se comunicar no mundo. Quando ensinamos habilidades sociais, queremos que elas possam ajudá-la nas relações. Quando trabalhamos com autonomia, queremos que ela participe cada vez mais da própria rotina.
É por isso que eu sempre digo que o objetivo não deve ser simplesmente acumular habilidades ou conseguir que uma criança faça algo durante uma sessão.
Uma habilidade não está realmente aprendida apenas quando aparece na terapia. Ela ganha sentido quando começa a ajudar a criança a viver melhor fora dela.
Com carinho,
Mayra Gaiato
Psicóloga e neurocientista