“Mayra, meu filho já tem oito anos. Desde pequeno percebo algumas diferenças, mas sempre me disseram que era uma fase, que ele amadureceria ou que cada criança tem seu tempo. Será que esperamos demais?”
Essa é uma pergunta que escuto de muitas famílias. E a história de Samuca, personagem da novela das sete, ajuda a trazer essa conversa para dentro de casa.
Quando uma criança apresenta dificuldades persistentes de comunicação, interação, comportamento ou adaptação à rotina, é comum que os adultos tentem encontrar explicações. Às vezes, dizem que ela é tímida, agitada, sensível demais ou que simplesmente precisa de mais disciplina.
Em alguns casos, essas características fazem parte das diferenças individuais. Em outros, podem indicar necessidades de desenvolvimento que merecem uma investigação mais cuidadosa.
O problema é quando a família passa anos esperando que dificuldades importantes desapareçam sozinhas.
Nem toda diferença é um transtorno, mas merece ser compreendida
O desenvolvimento infantil não acontece exatamente da mesma maneira para todas as crianças. Algumas adquirem determinadas habilidades mais cedo, outras precisam de mais tempo ou de diferentes oportunidades de aprendizagem.
Mas existe uma diferença entre respeitar o ritmo individual e deixar de investigar sinais persistentes.
Uma criança de oito anos que apresenta dificuldades importantes para compreender situações sociais, comunicar necessidades, lidar com mudanças, participar de atividades escolares ou desenvolver autonomia pode precisar de uma avaliação, especialmente quando essas dificuldades interferem em sua vida cotidiana.
Também podemos observar sensibilidades sensoriais intensas, comportamentos repetitivos, interesses muito restritos ou dificuldades frequentes de regulação emocional.
Esses sinais, isoladamente, não confirmam autismo nem qualquer outro transtorno do neurodesenvolvimento. Eles precisam ser compreendidos dentro da história daquela criança, considerando seu desenvolvimento, suas habilidades, o ambiente e as situações em que as dificuldades aparecem.
Não é papel dos pais fechar um diagnóstico. É papel dos adultos perceber quando uma criança precisa de ajuda e buscar orientação.
Por que algumas crianças passam tantos anos sem diagnóstico?
Existem diferentes motivos.
Algumas crianças desenvolvem estratégias para lidar com suas dificuldades, especialmente em ambientes familiares conhecidos. Outras apresentam sinais que são confundidos com timidez, desobediência, falta de interesse ou dificuldades escolares.
Há também famílias que recebem orientações para esperar, enfrentam dificuldades de acesso a especialistas ou passam por avaliações que não esclarecem completamente o que está acontecendo.
E precisamos lembrar que nem todas as crianças apresentam as mesmas características. O autismo, por exemplo, é um espectro, e suas manifestações podem variar bastante de uma pessoa para outra.
Por isso, não devemos imaginar que existe apenas uma maneira de uma criança autista se comportar.
Uma criança pode falar, demonstrar afeto, aprender conteúdos escolares e ainda apresentar dificuldades importantes em outras áreas do desenvolvimento.
Aos oito anos, ainda dá tempo de ajudar?
Claro que sim.
A primeira infância é um período de grande plasticidade cerebral, e identificar necessidades de desenvolvimento precocemente permite oferecer apoios importantes desde os primeiros anos.
Mas isso não significa que o cérebro deixe de aprender depois de determinada idade.
A plasticidade cerebral continua ao longo da vida. Crianças mais velhas, adolescentes e adultos também podem desenvolver habilidades, ampliar sua autonomia e melhorar sua qualidade de vida quando recebem os apoios adequados.
O que não devemos fazer é transformar essa possibilidade em justificativa para continuar esperando.
Se uma dificuldade já interfere na comunicação, na aprendizagem, nas relações ou na participação da criança em atividades do cotidiano, existe uma necessidade que merece atenção agora.
E aqui está um ponto que considero fundamental: não precisamos esperar um diagnóstico definitivo para começar a oferecer determinados apoios.
A escola pode adaptar estratégias de ensino. A família pode buscar formas mais acessíveis de comunicação, organizar melhor as rotinas e ajudar a criança a desenvolver habilidades importantes. Profissionais podem avaliar necessidades específicas e orientar intervenções.
O diagnóstico ajuda a compreender o quadro e direcionar o cuidado, mas a criança não precisa ficar sem suporte enquanto a investigação acontece.
Por onde começar?
Se você reconhece dificuldades persistentes no desenvolvimento do seu filho, o primeiro passo é organizar aquilo que observa.
Em quais situações ele encontra mais dificuldades? Isso acontece em casa e na escola? Desde quando? Quais habilidades ele já desenvolveu? O que parece ajudá-lo?
Converse com os professores e procure o pediatra ou um profissional habilitado para avaliação do neurodesenvolvimento. Dependendo das necessidades identificadas, pode ser indicada uma avaliação interdisciplinar.
Também é importante ouvir a própria criança, respeitando suas possibilidades de comunicação. Afinal, estamos falando da experiência dela, e não apenas das preocupações dos adultos.
E evite compará-la constantemente com irmãos, colegas ou outras crianças da mesma idade. As comparações não esclarecem um diagnóstico e podem aumentar o sofrimento de quem já enfrenta dificuldades.
O que precisamos compreender é quais habilidades estão presentes, quais ainda precisam ser desenvolvidas e quais barreiras podem ser reduzidas.
Se a história de Samuca despertou alguma dúvida sobre seu filho, use essa reflexão como um convite para observar e buscar orientação, não para tentar diagnosticá-lo pela televisão.
E, se você está pensando que deveria ter procurado ajuda antes, não transforme essa descoberta em culpa.
A pergunta mais importante não é apenas por que o diagnóstico ainda não chegou, mas o que podemos fazer, a partir de agora, para que essa criança tenha o apoio de que precisa.
Porque nunca devemos confundir respeitar o tempo de uma criança com deixá-la esperando por ajuda.
Com carinho,
Mayra Gaiato – Psicóloga e neurocientista