Saúde mental das mães atípicas: quem cuida também precisa ser cuidado

Às vésperas do Setembro Amarelo, novo atendimento psicológico do SUS para mães e mulheres cuidadoras chama atenção para uma realidade que acompanho há anos: muitas delas cuidam de todos, enquanto deixam a própria saúde mental por último.

Durante muitos anos atendendo crianças autistas e acompanhando suas famílias, vi uma cena se repetir inúmeras vezes no consultório. A mãe chega para falar do filho. Quer contar sobre o comportamento, a escola, as terapias, o sono, a alimentação, uma crise que aconteceu naquela semana ou uma habilidade que ainda não conseguiu desenvolver.

A consulta é da criança. O assunto, inicialmente, também. Mas, conforme a conversa avança, muitas vezes aparece outra pessoa precisando de cuidado: a própria mãe.

Ela está cansada, dormindo mal, ansiosa, tentando conciliar trabalho, casa, escola, consultas e terapias. Às vezes, está há tanto tempo funcionando no automático que nem percebe o quanto está sobrecarregada. Não porque não valorize a própria saúde, mas porque sempre parece existir alguma necessidade do filho mais urgente do que a dela.

Por isso, considero tão importante o novo atendimento psicológico oferecido pelo SUS a mães e outras mulheres que exercem o cuidado não remunerado de pessoas com deficiência, transtornos do neurodesenvolvimento e doenças raras. A iniciativa, que também contempla mulheres em situação de violência, prevê atendimento por videochamada e capacidade de até 100 mil consultas por mês.

Às vésperas do Setembro Amarelo, mês em que ampliamos a discussão sobre saúde mental e prevenção do suicídio, essa iniciativa nos convida a olhar também para quem passou muito tempo quase invisível dentro da própria rede de cuidado.

Quando a mãe aparece apenas como acompanhante

Quando uma criança recebe um diagnóstico de autismo, por exemplo, é natural que grande parte da atenção se volte para ela. Começam as avaliações, terapias, adaptações na escola, busca por profissionais, orientações para a família e tantas outras decisões.

Tudo isso é necessário. O problema é quando, nesse processo, começamos a enxergar aquela mulher apenas como a pessoa responsável por garantir que tudo aconteça.

Ela leva. Ela busca. Ela conversa com a escola. Ela organiza a rotina. Ela pesquisa. Ela acompanha as terapias. Ela aprende estratégias para ajudar o filho em casa. Ela administra crises e, muitas vezes, ainda precisa explicar para outras pessoas por que aquela criança se comporta, comunica ou reage de determinada maneira.

Mas quem pergunta como ela está?

A possibilidade de receber atendimento psicológico por videochamada é especialmente relevante porque considera uma barreira muito concreta: muitas mães cuidadoras têm dificuldade até para encontrar tempo para cuidar de si. Para fazer uma consulta presencial, alguém precisa ficar com o filho, é preciso organizar o deslocamento e encaixar mais um compromisso em uma rotina que frequentemente já está no limite.

Quando o cuidado consegue chegar até essa mulher, uma dessas barreiras começa a ser retirada.

Psicoterapia é cuidado, mas não pode ser a única resposta

Eu comemoro muito esse avanço, mas existe uma reflexão que considero fundamental.

Não podemos transformar a terapia em uma forma de ensinar uma mulher a suportar sozinha uma sobrecarga que deveria ser compartilhada.

A psicoterapia pode oferecer acolhimento, ajudar essa mãe a compreender suas emoções, reconhecer limites, pedir ajuda e cuidar da própria saúde mental. Mas nenhuma psicoterapia substitui uma rede de apoio.

Essa mulher também precisa encontrar uma escola verdadeiramente inclusiva para o filho, ter acesso aos tratamentos necessários, contar com profissionais capacitados e, sempre que possível, dividir as responsabilidades do cuidado dentro da própria família.

Saúde mental não pode significar apenas aumentar a capacidade de alguém continuar suportando uma rotina insustentável.

Cuidar de si não significa cuidar menos do filho

Existe ainda uma culpa que precisa ser enfrentada. Muitas mães sentem que reservar tempo para si significa retirar alguma coisa do filho.

Não significa.

Uma mãe continua sendo uma pessoa inteira depois que se torna cuidadora. Ela continua tendo necessidades emocionais, físicas, profissionais e sociais. Pode amar profundamente o filho e, ao mesmo tempo, estar cansada. Pode ser dedicada e precisar de ajuda. Pode sentir gratidão por avanços do filho e também reconhecer que existem dias muito difíceis.

Uma coisa não anula a outra.

Talvez um dos avanços mais importantes dessa nova iniciativa do SUS seja justamente simbólico: a mãe deixa de aparecer apenas como acompanhante e passa a ser reconhecida também como alguém que merece cuidado.

Neste Setembro Amarelo, eu gostaria que essa reflexão chegasse a mais famílias. Durante muito tempo, perguntamos às mães o que elas poderiam fazer para ajudar seus filhos. Precisamos começar a perguntar também do que elas precisam.

Porque cuidar de quem cuida não é um luxo, nem egoísmo. É saúde.

Com carinho,
Mayra Gaiato
Psicóloga e neurocientista

Compartilhe:
Facebook
Twitter
LinkedIn
WhatsApp
Email

Não encontrou o que precisava?

Entre em contato com a gente!