As férias estão chegando e, junto com elas, uma situação que muitas famílias me trazem no consultório.
“Mayra, meu filho fica desregulado quando viajamos.”
“Ele não consegue dormir direito.”
“Fica mais irritado.”
“Parece outra criança.”
E, na maioria das vezes, isso não acontece porque a viagem foi ruim.
Acontece porque viajar significa mudar praticamente tudo aquilo que ajuda muitas crianças a se sentirem seguras.
Mudam os horários.
Mudam os ambientes.
Mudam os cheiros.
Mudam as pessoas.
Mudam as refeições.
Mudam os sons.
Até a cama é diferente.
Para muitas crianças neurodivergentes, especialmente aquelas que dependem mais de previsibilidade, essa quantidade de mudanças pode gerar ansiedade e sobrecarga.
O problema nem sempre é a viagem
Uma coisa importante que gosto de explicar às famílias é que muitas crianças não estão rejeitando a viagem.
Elas estão tentando entender um mundo que, de repente, ficou diferente.
Quando a rotina desaparece, o cérebro precisa trabalhar mais para prever o que vai acontecer.
E quanto maior a incerteza, maior pode ser a ansiedade.
Por isso, uma das estratégias mais importantes começa antes mesmo de fazer as malas.
Antecipar reduz ansiedade
Na ABA Naturalista, trabalhamos muito com previsibilidade.
O cérebro se sente mais seguro quando consegue antecipar o que vai acontecer.
Por isso, vale mostrar fotos do destino.
Conversar sobre o hotel.
Explicar como será o avião, o carro ou o aeroporto.
Montar um calendário simples com os dias da viagem.
Assistir vídeos do local.
Mostrar onde a criança vai dormir.
Quanto mais familiar aquela experiência parecer, menor tende a ser a ansiedade.
Leve um pouco da rotina junto com você
Nem tudo precisa mudar.
Aliás, essa é uma dica que costuma ajudar bastante.
Se possível, mantenha alguns elementos que já fazem parte do dia a dia da criança.
O travesseiro favorito.
O bichinho de pelúcia.
O livro da rotina noturna.
A música que ela costuma ouvir para dormir.
Pequenos detalhes ajudam o cérebro a encontrar pontos de segurança em um ambiente novo.
Viagens também são experiências sensoriais
Algo que muitas famílias esquecem é que viajar não envolve apenas passeios.
Envolve estímulos.
Muitos estímulos.
Aeroportos movimentados.
Filas.
Luzes.
Barulhos.
Temperaturas diferentes.
Cheiros novos.
Alimentações diferentes.
Para algumas crianças, isso pode ser cansativo.
Por isso, não tenha medo de fazer pausas.
Nem todo passeio precisa durar o dia inteiro.
Nem toda programação precisa ser cumprida.
Às vezes, uma hora de descanso evita uma crise mais tarde.
E quando a viagem é internacional?
Para famílias que viajam para outros países, existem desafios extras.
O fuso horário.
As mudanças climáticas.
O excesso de caminhadas.
As alterações na alimentação.
Tudo isso pode afetar o sono, o humor e a regulação emocional.
Meu conselho costuma ser simples: respeite o tempo de adaptação.
Nem sempre o primeiro dia será o melhor para fazer uma programação intensa.
Às vezes, desacelerar no início ajuda toda a família a aproveitar melhor os dias seguintes.
As férias também ensinam
Quando pensamos em desenvolvimento, muitas vezes imaginamos apenas a escola ou as terapias.
Mas a vida real é uma das maiores oportunidades de aprendizagem que existem.
Viajar ensina flexibilidade.
Ensina adaptação.
Ensina comunicação.
Ensina resolução de problemas.
Ensina autonomia.
Ensina tolerância a pequenas frustrações.
E tudo isso acontece de forma natural.
O que eu quero que você leve deste texto
Se existe uma palavra que eu gostaria que acompanhasse sua família nas próximas férias, ela é preparação.
Não para controlar cada detalhe da viagem.
Mas para ajudar a criança a entender o que está por vir.
Porque quanto mais previsibilidade oferecemos, mais segurança o cérebro encontra para explorar o novo.
E quando isso acontece, a viagem deixa de ser apenas uma mudança de cenário.
Ela se transforma em uma oportunidade de crescimento, conexão e desenvolvimento para toda a família.
Com carinho,
Mayra Gaiato
Psicóloga e Neurocientista