Quando pensamos em música, geralmente pensamos em diversão, lazer ou entretenimento.
Mas, do ponto de vista do desenvolvimento infantil, ela pode ser muito mais do que isso.
Ao longo da minha trajetória acompanhando crianças e famílias, percebi que a música frequentemente se transforma em uma ponte. Uma forma de compreender melhor como aquela criança percebe o mundo, processa informações, se comunica e se relaciona com as pessoas ao seu redor.
E isso vale não apenas para crianças autistas, mas para o desenvolvimento infantil de forma geral.
Nem toda comunicação acontece através das palavras
Uma das coisas mais importantes que aprendi trabalhando com crianças é que comunicação não é sinônimo de fala.
As crianças se comunicam através dos olhares.
Dos gestos.
Das expressões.
Dos interesses.
Das brincadeiras.
E, muitas vezes, através da música.
Algumas crianças demonstram atenção compartilhada com mais facilidade durante uma canção. Outras participam mais das interações, se aproximam das pessoas ou conseguem expressar emoções de forma mais espontânea quando a música faz parte daquele momento.
Isso não acontece por acaso.
O cérebro humano possui uma relação muito especial com os estímulos musicais.
A música conversa com diferentes áreas do cérebro
Poucas experiências ativam tantas regiões cerebrais ao mesmo tempo quanto a música.
Quando ouvimos ou fazemos música, o cérebro mobiliza áreas relacionadas à atenção, memória, linguagem, coordenação motora, processamento auditivo, emoções e recompensa. Essa integração ajuda a explicar por que a música consegue promover engajamento, facilitar interações e favorecer diferentes formas de aprendizagem.
Por isso, a música costuma ser uma ferramenta tão poderosa para participação e envolvimento.
Muitas vezes, ela ajuda a organizar experiências que, de outra forma, seriam difíceis de processar.
E isso pode fazer diferença em situações do cotidiano, da escola e das relações sociais.
A música também ajuda o cérebro a aprender
Quando falamos sobre aprendizagem, muita gente pensa apenas em leitura, escrita ou matemática.
Mas antes de aprender conteúdos, o cérebro precisa desenvolver habilidades que sustentam a aprendizagem.
E a música pode contribuir justamente nesse processo.
Ao acompanhar uma canção, a criança trabalha atenção e memória.
Ao seguir um ritmo, exercita planejamento motor e a coordenação.
Ao esperar sua vez em uma atividade musical, desenvolve autocontrole e habilidades sociais.
Ao cantar, amplia aspectos relacionados à linguagem, à percepção auditiva e à comunicação.
Além disso, a música favorece a formação de conexões entre diferentes regiões cerebrais. Por isso, ela costuma ser uma ferramenta tão rica para o desenvolvimento infantil.
Não se trata de transformar uma criança em musicista.
Trata-se de oferecer experiências que ajudam o cérebro a organizar informações, sustentar a atenção, reconhecer padrões e construir novas aprendizagens.
É por isso que, muitas vezes, observamos crianças mais engajadas, participativas e disponíveis para aprender quando a música faz parte do processo.
Regulação emocional também se aprende
Outro aspecto que chama atenção é a relação entre música e regulação emocional.
Toda criança vive momentos de ansiedade, frustração, excitação ou sobrecarga.
Mas nem sempre ela sabe identificar o que está sentindo ou como lidar com essas emoções.
A música pode funcionar como um recurso de organização.
Pode ajudar a desacelerar.
A aumentar a atenção.
A criar previsibilidade.
A tornar determinadas situações mais seguras e compreensíveis.
Não porque ela elimina dificuldades, mas porque oferece ao cérebro mais recursos para lidar com elas.
Participar é mais importante do que suportar
Quando falamos em inclusão, muitas vezes imaginamos que a criança precisa simplesmente aprender a tolerar situações difíceis.
Mas essa não é a única possibilidade.
Em muitos casos, o caminho está em encontrar ferramentas que favoreçam a participação.
Pode ser uma adaptação sensorial.
Pode ser uma estratégia visual.
Pode ser um abafador de ruídos.
Pode ser a música.
O mais importante é compreender que apoiar uma criança não significa protegê-la do mundo, mas ajudá-la a encontrar formas mais seguras e confortáveis de estar nele.
O desenvolvimento começa quando entendemos a criança
Talvez a maior contribuição da música não esteja apenas nas habilidades que ela ajuda a desenvolver.
Mas naquilo que ela nos permite descobrir.
Muitas vezes, ela revela interesses.
Mostra potencialidades.
Facilita conexões.
Amplia a participação.
E nos ajuda a enxergar aspectos daquela criança que poderiam passar despercebidos em outros contextos.
Por isso, sempre gosto de lembrar que o desenvolvimento não acontece apenas quando ensinamos algo novo.
Ele também acontece quando aprendemos a observar melhor quem a criança já é.
E poucas experiências nos ajudam tanto nessa descoberta quanto a música.
A reflexão que eu gostaria de compartilhar com você
Nem sempre o maior avanço acontece quando uma criança aprende uma habilidade nova.
Às vezes, ele acontece quando nós, adultos, passamos a compreendê-la melhor.
Quando identificamos suas formas de comunicação.
Quando reconhecemos seus interesses.
Quando encontramos caminhos para que ela participe, se expresse e construa relações.
E, muitas vezes, a música pode ser uma dessas portas de entrada.
Porque antes de ensinar qualquer coisa, precisamos conhecer a criança que está diante de nós.
E a música tem uma capacidade extraordinária de nos ajudar nessa descoberta.
Com carinho,
Mayra Gaiato
Psicóloga e Neurocientista