Lionel Messi acaba de escrever mais um capítulo da história do futebol.
A cada recorde quebrado, a cada atuação decisiva e a cada novo feito com a camisa da Argentina, seu nome volta ao centro das atenções do mundo esportivo.
E, curiosamente, junto com as buscas sobre seus gols, títulos e marcas históricas, uma outra pergunta reaparece com força na internet:
“Messi é autista?”
Essa dúvida circula há anos nas redes sociais, em vídeos e publicações que tratam a informação como se fosse um fato confirmado.
Mas não é.
Não existe qualquer diagnóstico público de autismo divulgado por Messi ou por sua família.
E isso nos leva a uma reflexão interessante.
Por que sentimos tanta necessidade de atribuir diagnósticos a pessoas extraordinárias?
Por que, quando alguém se destaca de forma excepcional, rapidamente buscamos uma explicação que vá além do talento, da dedicação e da história daquela pessoa?
Nem todo comportamento diferente é um diagnóstico
Ao longo dos anos, muitos vídeos tentaram associar determinadas características de Messi ao autismo.
Seu jeito mais reservado.
Sua timidez em entrevistas.
Seu foco intenso no futebol.
Sua forma mais discreta de lidar com a fama.
O problema é que nenhuma dessas características, isoladamente, permite concluir que uma pessoa seja autista.
Na prática clínica, diagnósticos não são feitos com base em vídeos, entrevistas ou recortes de comportamento.
Eles envolvem avaliação especializada, histórico de desenvolvimento e uma análise muito mais ampla do funcionamento daquela pessoa.
Por isso, quando alguém pergunta se Messi é autista, a resposta mais honesta é:
Nós não sabemos.
Por que tantas pessoas tentam diagnosticar celebridades?
Existe uma razão interessante para isso.
Quando uma pessoa pública apresenta características com as quais nos identificamos, nosso cérebro tende a buscar explicações.
Isso acontece com artistas.
Empresários.
Atletas.
Influenciadores.
E também com figuras históricas.
Nos últimos anos, a internet passou a atribuir diagnósticos a inúmeras personalidades sem qualquer confirmação oficial.
Alguns supostamente seriam autistas.
Outros teriam TDAH.
Outros seriam superdotados.
Mas existe uma diferença importante entre observar características e afirmar um diagnóstico.
O que realmente importa nessa discussão?
Talvez a pergunta mais interessante não seja se Messi é autista.
Mas por que tantas pessoas gostariam que ele fosse.
E a resposta pode estar relacionada à representatividade.
Durante muito tempo, pessoas autistas cresceram ouvindo apenas sobre dificuldades.
Hoje existe um movimento importante de mostrar também talentos, potencialidades e diferentes formas de estar no mundo.
Quando uma criança autista vê alguém admirado, bem-sucedido e respeitado, ela passa a enxergar mais possibilidades para si mesma.
Isso é positivo.
O que precisamos evitar é transformar qualquer comportamento diferente em um diagnóstico.
Autismo não explica talento
Outro ponto importante é que ser extremamente talentoso em algo não significa necessariamente ser autista.
Da mesma forma, ser autista não significa automaticamente possuir habilidades extraordinárias.
Cada pessoa é única.
Existem autistas apaixonados por esportes.
Por música.
Por tecnologia.
Por arte.
Assim como existem milhões de pessoas sem autismo que também apresentam interesses intensos e grande dedicação a determinadas áreas.
O talento de Messi é resultado de múltiplos fatores: características individuais, treino, oportunidade, dedicação e anos de desenvolvimento.
Antes de terminar, quero que você se lembre de uma coisa
Toda vez que vemos uma celebridade sendo diagnosticada pela internet, vale lembrar que comportamento não é sinônimo de diagnóstico.
Pessoas são mais complexas do que vídeos curtos, entrevistas ou manchetes.
Talvez Messi seja apenas um atleta extraordinário.
Talvez existam características que nunca conheceremos.
E tudo bem.
O mais importante não é descobrir um diagnóstico que nunca foi confirmado.
É aprender a olhar para as pessoas com menos rótulos e mais curiosidade.
Porque compreender o neurodesenvolvimento não significa encaixar todo mundo em categorias.
Significa entender que existem muitas formas diferentes de pensar, sentir, aprender e viver.
E isso vale para atletas, artistas, crianças e adultos.
Com carinho,
Mayra Gaiato
Psicóloga e Neurocientista