Recentemente, me deparei com um dado que chamou minha atenção.
Nos Estados Unidos, as consultas pediátricas relacionadas à saúde mental cresceram mais de 70% nos últimos anos. A ansiedade se tornou o segundo diagnóstico mais frequente entre crianças, atrás apenas do TDAH.
Ao mesmo tempo, a Organização Mundial da Saúde estima que mais de 1 bilhão de pessoas convivam com transtornos mentais no mundo e que metade dessas condições comece antes dos 14 anos de idade.
Mas antes de tirarmos conclusões rápidas, eu acho importante fazer uma reflexão.
Será que as crianças estão mais ansiosas?
Ou estamos identificando melhor algo que antes passava despercebido?
A resposta provavelmente envolve um pouco das duas coisas.
Hoje existe mais informação, mais conscientização e mais profissionais atentos aos sinais de sofrimento emocional.
Isso é positivo.
Mas também acredito que algumas características da vida moderna têm tornado mais difícil a tarefa de crescer.
O cérebro infantil foi feito para viver experiências, não apenas consumi-las
Quando pensamos em desenvolvimento infantil, costumamos falar sobre escola, notas e aprendizagem.
Mas existe outra necessidade fundamental do cérebro: viver experiências reais.
Brincar.
Correr.
Explorar.
Conviver.
Resolver pequenos conflitos.
Esperar.
Frustrar-se.
Criar.
O problema é que muitas crianças estão vivendo cada vez menos dessas experiências.
Não porque os pais não se importam.
Mas porque a vida mudou.
As famílias trabalham mais.
As cidades ficaram menos seguras.
O tempo ficou mais escasso.
E as telas passaram a ocupar um espaço cada vez maior na rotina.
As telas fazem parte da discussão, mas não são a única explicação
Sempre que falamos sobre ansiedade infantil, alguém pergunta sobre as telas.
E sim, elas merecem atenção.
As plataformas digitais oferecem estímulos rápidos, recompensas imediatas e uma quantidade enorme de informações que o cérebro precisa processar.
Mas eu não gosto de transformar as telas em vilãs.
Porque a vida real é mais complexa do que isso.
Existem famílias sem rede de apoio.
Pais exaustos.
Mães tentando trabalhar, cuidar da casa e dos filhos ao mesmo tempo.
Muitas vezes a tela entra como uma ferramenta de sobrevivência.
O problema não é apenas o tempo de tela.
É quando ela começa a substituir experiências importantes para o desenvolvimento emocional.
O que protege a saúde mental de uma criança?
Essa é a pergunta que mais me interessa.
Porque quando observamos as pesquisas, existe algo que aparece repetidamente como fator de proteção.
Conexão.
Crianças precisam de vínculos.
Precisam sentir que pertencem.
Precisam ter adultos disponíveis emocionalmente.
Precisam brincar.
Precisam se movimentar.
Precisam experimentar o mundo real.
Atividade física, música, momentos de lazer, contato com a natureza e interações sociais não são apenas entretenimento.
São experiências que ajudam o cérebro a desenvolver habilidades de regulação emocional.
O que as famílias podem fazer na prática?
A boa notícia é que não estamos falando de soluções complexas.
Muitas vezes, pequenas mudanças fazem diferença.
Criar momentos de conexão sem telas.
Fazer refeições juntos.
Estimular brincadeiras ao ar livre.
Oferecer oportunidades para a criança participar da rotina da casa.
Valorizar atividades como música, esportes, leitura e jogos presenciais.
Ensinar a lidar com pequenas frustrações sem resolver tudo imediatamente.
E, principalmente, observar.
Ansiedade não aparece da mesma forma em todas as crianças.
Às vezes ela surge como preocupação excessiva.
Às vezes como irritação.
Às vezes como dificuldade para dormir.
Às vezes como sintomas físicos, como dores de barriga ou de cabeça.
Quanto mais cedo identificamos sinais de sofrimento emocional, mais cedo conseguimos ajudar.
O que eu quero que você leve deste texto
A infância nunca foi uma fase sem desafios.
Mas o mundo em que nossas crianças estão crescendo mudou rapidamente.
Por isso, mais do que buscar culpados, eu acredito que precisamos criar oportunidades de conexão, movimento, brincadeira e pertencimento.
O cérebro infantil não se desenvolve apenas dentro da escola.
Ele se desenvolve nas conversas da mesa de jantar.
Nas brincadeiras de faz de conta.
Nos esportes.
Na música.
Nas amizades.
E nos vínculos que ajudam uma criança a sentir que não está sozinha diante das dificuldades da vida.
Porque ainda dá tempo.
E quando fortalecemos esses fatores de proteção, não estamos apenas reduzindo a ansiedade.
Estamos construindo recursos emocionais que acompanharão essa criança por toda a vida.
Com carinho,
Mayra Gaiato
Psicóloga e Neurocientista